Mistérios de Lisboa
01/11/2010 at 2:18 pm Deixe um comentário

Cotação: * * * *
Raúl Ruiz (Portugal/França, 2010)
O que me impressionou inicialmente após o término do filme foi sua leveza, envolvência e fluência narrativa (mesmo com duração de 4h30). Nada parece pesar muito no filme, algo que Raúl Ruiz usa a seu favor. Esta adaptação de um folhetim literário do século XIX é composta por uma série de confissões sobre o passado que se tornam flash-backs, crescem e se tornam filmes dentro de filmes (o suposto protagonista, por exemplo, desaparece por longos períodos de tempo).
O peso do passado, eis o tema (mais lusitano impossível, aliás) deste mosaico de amores perdidos e filhos bastardos. Não importa o quanto os personagens troquem de nome e posição social, a câmera de Ruiz está sempre atenta á decoração da cena (a cenografia não é só “linda”, mas dramaticamente necessária), apontando o inevitável: não há fuga do próprio passado (talvez isto dê sentido ao estranho desfecho do filme).
O filme, visualmente muito criativo, tem vários momentos de inesperado surrealismo (um crânio fantasma surgindo num relógio, a própria câmera servindo como mesa onde se trocam bilhetes, etc mais etc). Também há um olhar irônico para as relações sociais do filme, já que, como próprio filme não se cansa de de afirmar, este é um filme em que burgueses sofrem muito por coisas que são banalidades para os pobres. Enfim, um grande filme, merecedor de pelo menos uma revisão atenta para desvendar seus muitos mistérios.
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