Cinema da Geórgia – últimos 5 filmes

29/12/2009 at 3:37 pm Deixe um comentário

Era Uma Vez Um Pássaro Negro
Otar Iosseliani – 1970 – Geórgia

Gia é um músico que enfurece os dirigentes de sua orquestra por suas atitudade nada protocolar. O homem só comparece aos concertos em cima da hora para sua breve participação tocando tambor e depois vai embora. Ou seja, ele cumpre obrigações estritamente necessárias e só – seja na música, seja no dia a dia.

É um homem que, mesmo dentro de restrições severas, faz questão de ser o mais livre possível. Algo que faz perfeito sentido num país que conheceu a repressão (e continua atual neste mundo capitalista-workaholic). Esta manifestação de uma liberdade mínima, mas imprecindível, é a preocupação crucial do grande cineasta Otar Iosseliani. Ela pode ser vista com menor força nos ótimos Novembro (1966, exibido nesta mostra) e Adeus, Lar Doce Lar (1999) e no genial Segunda de Manhã (2001), um dos grandes filmes desta década.

Grande parte do filme consiste na câmera o seguindo enquanto ele mata o tempo, se diverte, paquera desconhecidas e ex-namoradas ou mete o nariz onde não é chamado. Iosseliani opõe Gia, sempre em movimento irregular, com as pessoas que ele encontra, sempre em movimento linear, ocupadas com tarefas cotidianas.

O cineasta filma espaços, ruas, e multidões – as pessoas estão sempre em evidência na câmera, mesmo quando Gia está em primeiro plano. Quem realmente desperdiça a vida – Gia ou os outros? Mas Iosseliani não faz uma defesa irrestrita de seu herói. Ao contrário, Gia desaponta várias pessoas que gosta, se mete em problemas e poderia se tornar um músico melhor se fosse mais disciplinado.

Mas o destino dá sinais de que isto será impossível: um vaso que cai da janela, uma garrafa com veneno, etc. Gia morre – resta a você seguir o relógio que volta a funcionar (o último plano do filme). Uma obra-prima.

Uma Exposição Extraordinária
Eldar Shengelaya – 1968 – Geórgia

Boa comédia agridoce (definição que se aplica a muitos dos filmes desta mostra!) sobre escultor que herda um bloco de legítimo mármore grego. Ele passa a vida sem tempo para criar uma obra-prima no bloco porque tem que sustentar a família com encomendas de bustos para cemitérios (feitos com material menos nobre).

Obviamente as piadas são sobre as dificuldades de sobreviver no mundo como artista, especialmente no contexto da Segunda Guerra e no pós-Guerra (e da censura soviética), épocas cobertas pelo filme. Na verdade, Eldar Shengelaya faz um um belo retrato das transformações que sofrem o modo de vida da população pobre da Geórgia, com digressões narrativas curiosas (incluindo uma na qual o protagonista vai a um jantar de reencontro de colegas de escola).

No final, você decide se o escultor desistiu de ser artista ou se (na bela cena da “exposição” no cemitério) ele passou a enxergar méritos artísticos em sua obra. Preste atenção a uns planos freeze-frame (congelados) bacanas – claro, é um filme sobre esculturas.

Pirosmani
Giorgi Shengelaya – 1969 – Geórgia

Biografia pouco convencional do pintor Niko Pirosmani, que viveu e morreu na miséria nos séculos 19 e 20. O cineasta Giorgi Shengelaya evita dar explicações sobre o pintor. Ele não esclarece por que o artista vive deprimido o tempo todo.

Algumas cenas sugerem uma revolta contra um mundo regido pelo dinheiro… outras, que ele apenas sofre de depressão – ambas as hipóteses são válidas. Giorgi também recusa encenar episódios folclóricos. Por exemplo, a lendária paixão de Pirosmani por uma cantora, que em outro filme seria central, é resumida aqui a uma cena curta, sem contexto.

A maioria dos planos do filme são imóveis e frontais, com composições de figuras e cores fortes inspiradas na obra do próprio Pirosmani. Ele em geral pintava figuras do cotidiano (campos, vacas, bares, trabalhadores, etc) e seus quadros adornavam lugares que frequentava. Portanto, Pirosmani, o filme, é uma viagem no tempo, não a um desfile de acontecimentos históricos, mas a um certo modo de ser e viver.

Minha Avó
Kote Miqaberidze – 1929 – Geórgia

O maior achado visual do filme é o cenário principal do primeiro ato, uma mesa redonda enorme cercada por portas sem paredes (que, dependendo da altura da câmera, lembra uma coroa ou um relógio). No começo, Minha Avó parece uma sátira burocrática de excelentes sacadas visuais e pretensões vanguardistas evidentes.

O cineasta Kote Miqaberidze usa todo e qualquer recurso cinematográfico disponível: câmeras altas e baixas, lentas e rápidas, subjetivas, zooms, fades, fusões e até uma primitiva interação entre animação e gente de carne e osso. Apesar disso, filme tem certa leveza, talvez pelo senso de humor, por vezes surpreendentemente grosseiro para a época (veja cena de homem que faz “bem me quer, mal me quer” cuspindo numa barata).

Mas no terceiro ato, você percebe que Kote tem outras intenções, mais politicamente subversivas: um homem do povo anteriormente destratado no escritório agora é a nova autoridade do lugar (representando a revolução comunista), mas o lugar continua tão ineficiente quanto antes.

Na última cena, ele expulsa com a voz multidão de burocratas e clientes, que se tornam literalmente sombras na parede, clara referência as incontáveis vítimas da União Soviética. Minha Avó teve sua exibição proibida por 38 anos.

Medo de Matar (Schussangst)
Dito Tsintsadze – 2003 – Alemanha

Ver Medo de Matar, único filme alemão da mostra (o cineasta Dito Tsintsadze é georgiano), é acumular perguntas.

Por que o filme enfatiza tanto que o protagonista, Lukas (Fabian Hinrichs) pratica o remo, se isto não tem importância aparente? Por que o destaque para o trabalho dele como assistente social entregando comida para idosos bizarros, como uma prostituta na terceira idade e um veterano de guerra com tapa-olho? Aí Lukas conhece uma garota (a maravilhosa Lavinia Wilson, que eu conheci este ano no suíço Tandoori Love) à princípio excêntrica e adorável. Então isto é uma comédia romântica indie habitada por tipos esquisitos? De jeito nenhum.

As dúvidas continuam. Por que a garota insiste em dormir com Lukas na cama, se ela não demonstra qualquer interesse social ou sexual nele (eles não transam)? Por que ela interrompe sem motivo uma conversa com ele, atravessa a rua como um zumbi e entra num prédio desconhecido? Pra que serve aquele cena longa e estranha na qual o vizinho de Lukas tenta seduzi-lo defendendo as inúmeras qualidades da ditadura norte-coreana(!)? Por que um policial (Christopher Waltz, com maneirismos similares a Bastardos Inglórios), nitidamente inspirado no Porfiry Petrovich (Crime e Castigo), interroga Lukas várias vezes, se ele nunca fez nada errado?

Eventualmente, para algumas destas e muitas outras perguntas, há respostas. Nenhuma dada de mãos beijadas, só disponíveis nas entrelinhas. Um filme com elementos tão desiguais poderia se perder logo, mas Tsintsadze conta com duas âncoras importantes:

1) O elenco – Fabian Hinrichs, Lavinia Wilson, Waltz e outros – todos na mesma sintonia e dentro das mudanças inesperadas de tom do filme (humor, amor, violência, etc);

2) O domínio de uma câmera fria, cerebral, como se olhasse personagens com uma lupa, mas sem deixar de ter um olhar inegavelmente humano (lembra Claude Chabrol, só que com um senso de humor mais estranho);

Em especial, destaco duas cenas: o plano-sequencia em que Lukas é interrogado mais uma vez pelo policial enquanto algo fatídico acontece no fundo, fora de foco, só sendo revelado com um ajuste na profundidade de campo ao fim do interrogatório. E o desfecho, tão desconcertante quanto lógico (na lógica estranha do filme).

Um filme imperfeito, sem dúvida, mas com um frescor e uma personalidade que despertou minha curiosidade para conhecer mais da obra (extensa) de um cineasta que, até onde sei, é completamente desconhecido por aqui.

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Cinema da Geórgia – 5 filmes Lula, o Filho do Brasil

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