Melhores Filmes de 2009

31/01/2010 at 9:39 pm 4 comentários

Eu percebi que montar minha lista de filmes preferidos do ano é um trabalho em progresso. Se você quiser montar e divulgar sua lista, em algum momento você deve desistir de procurar os “filmes que faltam” (pérolas obscuras elogiadas por amigos antenados) e fazer suas escolhas. No futuro, você fará – se for paciente e sensato – revisões e acrécimos à lista. Ainda mais se você usar os meus critérios.

O mais importante deles: só entraram filmes oficialmente produzidos em 2009 (fonte: IMDB). É um critério, reconheço, discutível. Por exemplo, Atividade Paranormal oficialmente é de 2007, mas sua recepção de público e crítica (e um final alterado, imposto por produtores) só faz sentido no contexto do lançamento mundial em 2009. Paciência. Em compensação, incluí filmes vistos em festivais e pela internet (muitos dos quais, devido a covardia das distribuidoras, jamais chegarão nos cinemas daqui).

Minhas razões para adotar este critério são sentimentais. Eu sempre gostei de cinema, mas somente nos últimos dez anos passei a escrever sobre o que via (meus textos iniciais eram amadores demais, mas isto não é vergonha). Para comemorar, quero fazer listas dos meus preferidos de cada ano desta década tão especial (fique de olho no blog neste ano).

A lista de 2009 foi dividida em duas: a lista “A” é dos meus dez favoritos de 2009, em ordem de preferência. A lista “B” foi composta em ordem alfabética por dez grandes filmes, que não despertaram a mesma paixão da “A”. Só 20 filmes – haviam outros que mereciam alguma menção (talvez numa hipotética lista “C”), mas foram cortados. Eu prefiro listas pequenas e com limites rigorosos, pois revelam mais da personalidade do autor – algo que corre o risco de se diluir numa lista imensa.

Boa leitura e bons filmes!

P.S. – Pensei seriamente em incluir o curta tailandês A Letter to Uncle Boonmee, de Apichatpong Weerasethakul. Mas ele foi exibido no Festival Internacional de Curtas de SP em condições ruins demais para eu me sentir confortável em inclui-lo (para você ter uma idéia do quão ruim, saiba que alguns dos incluídos foram vistos em más condições também).

Lista “B” – Dez grandes filmes (em ordem alfabética)

Bellamy
Claude Chabrol – França

Uma investigação policial na qual o detetive (Gérard Depardieu, usando muito bem a pança) e sua vida pessoal – casamento, parentes – são um mistério tão interessante quanto o crime que investiga. E como sempre, Claude Chabrol retrata com veneno a sociedade, as relações familiares, as divisões de classe, etc.

Gamer
Mark Nedevine, Brian Taylor – EUA

Os cineastas Mark Nedevine e Brian Taylor (dos dois Adrenalina) crescem em ambição com este filme. A montagem videoclipe/videogame tem uma expressividade visual agressiva, quase experimental, e perfeita para mostrar o inferno capitalista desta sociedade futurista. E daí que não dá pra se identificar com nenhum personagem (o suposto herói é pouco mais que um boneco) ou acompanhar as cenas de ação? Isto só rmelhora o filme – que é tão doente quanto aquilo que combate.

Invictus
Clint Eastwood – EUA

Já falei sobre o filme aqui. Só acrescento que além de ser um filme sobre o jogo da política, também é sobre os diferentes tipos de liderança que os dois protagonistas exercem. Compare a vida pessoal do jogador de Matt Damon com a solidão que o poder exige de Mandela. Como todo bom Clint, Invictus é direto, sem firulas – e mais complicado do que aparenta.

Kinatay
Brillante Mendoza – Filipinas, França

Um filme perturbador, cuja força reside não só num trabalho de imagens e sons assustador, como por acompanhar quase até o fim um protagonista envolvido numa situação cada vez mais terrível e nos colocar diante das mesmas dúvidas dele, incluindo a mais difícil: como agir num mundo onde a corrupção está tão disseminada quanto oculta?

The Limits of Control
Jim Jamursch – EUA, Japão

Por vezes o filme ameaça derrapar na metáfora mais simplória (arte versus capitalismo, é isso mesmo seu Jamursch?) mas se revela um grande ensaio sobre o prazer de olhar, e sobre a relação entre cinema e artes plásticas. Inclui momentos geniais (e engraçados) o bastante para compensar alguns entediantes. Também é um excelente filme de atmosfera, angustiante em seu jeito lacônico de ser.

Louise Michel, A Rebelde
Sólveig Anspach – França

Um retrato de um período muito específico de uma personalidade histórica – uma anarquista da Comuna de Paris exílada numa colônia da Oceania – e de como seus ideais se aplicam (ou não) num contexto muito diferente (prisão, colonialismo). Um filme de olhar muito preciso, atento as complexidades da situação e de sua heróina e, por fim, muito pungente.

Mother
Bong Joon-Ho – Coreia do Sul

Escrevi isto durante a Mostra SP, e tenho pouco a acrescentar: “O argumento melodramático (mãe tenta provar que o simpático filho deficiente metal é inocente de um crime bárbaro) serve de pretexto pra uma tragicomédia bizarra sobre uma sociedade doente e insensível aos seus membros mais fracos. Aos poucos o filme deixa de ser engraçado e se torna só trágico. (…)”. Forte (se desequilibrado), Mother evita com louvor simplismos e vitimizações.

Presságio
Alex Proyas – EUA, Reino Unido

Hollywood filmou o fim do mundo várias vezes, mas raramente com a força e o horror deste aqui. Um filme muito mais ambíguo do que lhe dão crédito – ele compara ciência com religião e, no fim, nenhum serve de muita valia ou conforto para o herói. Nicolas Cage em ótima atuação ruim.

Vencer
Marco Bellocchio – Itália, França

Na sua vontade de exibir um grande filme, Bellocchio quase implode Vencer. Mais do que contar as histórias de duas vítimas inusitadas do fascismo de Mussolini, Vencer expõe em imagens como instituições e suas ideologias – pátria, fascismo, Igreja Católica, psiquiatria – se aproximam e impõem sua autoridade.

Vício Frenético
Werner Herzog – EUA

Um autêntico filme do Herzog. Diante do caos – pessoal (o anti-herói é auto-destrutivo), natural (furacão Katrina) e social (Nova Orleans) – a justiça de um policial corrupto e demente faz muito mais sentido que a frágil instituição que representa. E Herzog se permite cenas de alucinação lisérgicas, notáveis pela grosseria e invenção (a mise-en-scène destes momentos parecem pertencer a um filme diferente). Nicolas Cage em ótima atuação – e ponto.

Lista “A” – Os dez melhores filmes (em ordem de preferência)

10. Ricky
François Ozon – França, Itália

Muito mais que uma brincadeira de gêneros, Ricky é um retrato por vezes bastante comovente de uma família de baixa renda diante de uma situação sobrenatural. Ozon, possivelmente em seu melhor longa, filma tanto os dilemas pessoais daquela família quanto o impacto que a estranha situação traz a vida deles. Um filme nem sempre bem-sucedido, mas de grande força e beleza.

9. Ervas Daninhas
Alain Resnais – França, Itália

Como todo Resnais, um mistério sem solução aparente. Contudo, aqueles planos da ervas daninhas saindo do asfalto (quase como os planos de neve artificial em Medos Privados em Lugares Públicos) parecem apontar para nossos desejos (ou seja, nossa humanidade) de escapar do mundo concreto. Por isso este é “um filme movido pela paixão pelo cinema, e no qual o encantador anda de mãos dadas com o sinistro”.

8. Moscou
Eduardo Coutinho – Brasil

Coutinho estabelece um desafio claro: filmar por três semanas um grupo de teatro ensaiar As Três Irmãs, de Tchekhov, peça que não será apresentada ao público. O resultado final da experiência fica longe do típico registro de bastidores de espetáculo. Coutinho borra de diferentes formas as fronteiras entre atores/personagens, textos/improvisos e memórias/criações. Seu interesse maior é na verdade da performance, ou seja, na verdade da emoção que a performance produz (se ficcional, pouco importa). O filme é incompleto e inconclusivo? Melhor ainda.

7. A Família Wolberg
Axelle Ropert – França, Bélgica

O melhor filme de estreante do ano (na verdade, Axelle Ropert dirigiu antes um telefilme). Em incríveis 75 minutos, você vê o universo inteiro de altos e baixos de uma família, incrívelmente rico em nuances, emoções e questões de vida e morte. E sem as armadilhas típicas do gênero – vilanizações, psicologia de almanaque, fofura. Lamentável sua relativa obscuridade: um filme a ser revisto com urgência.

6. Inimigos Públicos
Michael Mann – EUA

Michael Mann surpreende outra vez e recusa refilmar seu Fogo Contra Fogo nos anos 30 (e uma dramaturgia tradicional). Prefere fazer um filme experimental em imagens e sons (tal como Miami Vice, mas com resultados distintos), sobre as possibilidades da liberdade pessoal, encarnada perfeitamente em Johnny Depp – e seus limites, vide o inesquecível plano final do filme.

5. Independência
Raya Martin – Filipinas, França, Alemanha, Holanda

Às vezes eu acho que filmes p&b sofrem de preconceito duplo, facilmente estereotipados como “filmes de festivais” por cinéfilos exigentes. Belíssimo filme atmosférico de momentos inesquecíveis (tempestade na floresta, céu vermelho, a Morte, etc). E um grande filme sobre o controle de imagens (e discursos) – o cine-jornal interrompendo a narrativa para justificar a morte de um menino por soldado americano é de um cinismo digno do melhor Paul Verhoeven. Se todo “filme de festival” fosse assim…

4. Vengeance
Johnnie To – Hong Kong, França

Johnnie To cumpre tanto os pré-requisitos dos mais básicos filmes de vingança (a começar pelo título…) quanto nos força reconhecer e questionar os mesmos mecanismos que movem filmes assim. E faz isso com várias idéias inteligentes. Por exemplo, o principal interessado na vingança está perdendo a memória aos poucos, lentamente tornando a missão em algo sem sentido. Quanto as cenas de ação, Johnnie To está inspiradíssimo, o que significa que estão anos-luz à frente de qualquer outra deste ano (desculpe Michael Mann).

3. Singularidades de uma Rapariga Loura
Manoel de Oliveira – Portugal, França, Espanha

O conto de um homem que tenta enriquecer para conquistar (comprar?) seu amor e se dá mal por isso. O foco aqui é o dinheiro e como ele (ou sua falta) move vidas e paixões. Filme de extraordinária síntese e de enquadramentos rigorosamente construídos. Grande parte do prazer do filme está em tentar descobrir os motivos e detalhes por trás de cada plano.

2. Bastardos Inglórios
Quentin Tarantino – EUA, Alemanha

Poucas vezes Tarantino levou tão longe seu interesse pelo trabalho dos atores e sua paciência em prolongar uma cena até provocar as reações mais fortes na platéia. Muito já foi dito a respeito do último Tarantino, inclusive (ou talvez especialmente) que ele seria sobre “o poder do cinema”. Mas este “poder” não é necessariamente nobre: entre os muitos momentos catárticos do fillme, houve algum mais belo que a vingadora judia cometer o erro fatal de se apiedar do inimigo abatido após vê-lo heróico num filme de propaganda nazista?

1. A Religiosa Portuguesa
Eugène Green – Portugal, França

O franco-americano Eugène Green vai a Portugal filmar mais uma epifania sua – dessa vez marcada pelas paisagens de Lisboa e pela onipresença do fado. Como em outros filmes seus, os personagens – filmados em generosos close-ups frontais, encarando a platéia – dizem com clareza o que querem e o que acreditam. A protagonista é uma atriz insatisfeita, que passa por um gradual processo de compreensão do que é o amor e o sagrado (em mais de um sentido) em sua vida. É uma trajetória generosamente comovente, mas também com um surpreendente bom-humor lusitano (cortesia da equipe de Aquele Querido Mês de Agosto). Nenhum outro filme em 2009 demonstrou tanta fé no cinema quanto este.

Anúncios

Entry filed under: Cinema. Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , .

Human Target S01E01 Lost S06E01-02

4 Comentários Add your own

  • 1. Bruno Cursini  |  01/02/2010 às 10:34 am

    Pois é Bruno, listas tem prazo de validade realmente curto e só funcionam com grandes restrições… Quanto ao curta do Apichatpong, ele pode ser visto com boa qualidade no The auteurs.

    Dos filmes por você mencionado, meu predileto é A família Wolberg, mas concordo que A religiosa portuguesa é um belo trabalho (apesar de seu ritmo contido e constante cansar um pouco, arrastando o filme em seu desenvolvimento, retomando seu efeito apenas nos últimos instantes).

    Mas, de fato, a única observação seria: DOIS NICOLAS CAGE É DEMAIS, até mesmo em uma lista “D”.

    Responder
    • 2. brunoamato  |  01/02/2010 às 12:49 pm

      Assim que der eu revejo o Apichatpong – festivais exibem filmes em projeções horrorosas e depois reclamam que as pessoas recorrem a Internet. Wolberg é um filme que quero rever. Religiosa, eu vi duas vezes e não me incomodei com o ritmo constante (filme serviu para me tornar fã do Green)

      Você não é fã do Cage, né? hehe Ou o problema é mais com os filmes em si?

      Responder
  • 3. Bruno Cursini  |  01/02/2010 às 1:36 pm

    Presságio não vi (e como Gamer achei que nunca iria querer ver), mas Herzog parece ter pedido de Cage seu mais caricatural, o que talvez tenha acentuado (demais?) o tom farsesco do filme… uma escalação consciente, mas os jacarés e iguanas já não seriam sufientes?

    Responder
    • 4. brunoamato  |  01/02/2010 às 2:22 pm

      Vale a pena conferir ambos – são filmes “comerciais”, muito mais ousados que muito “filme de arte” por aí. Os dois dividem muito as opinião (bom, na verdade se Gamer tiver uma dúzia de defensores no mundo é muito – o maior deles deve ser esse filósofo que escreveu um post GIGANTE sobre o filme em http://www.shaviro.com/Blog/?p=830 )

      Sobre Herzog, até concordo, mas eu compro o exagero do filme e (do Cage – mas ele tem momentos tocantes no filme, não?)

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Agenda

janeiro 2010
S T Q Q S S D
« dez   fev »
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Most Recent Posts


%d blogueiros gostam disto: